Melhor acompanhado do que só

Recentemente participei de um congresso de Gestalt-terapia, abordagem na qual atuo profissionalmente, e uma das palestras que mais me marcou foi a do psicólogo espanhol Ximo Tárrega, intitulada "Melhor acompanhado do que só". A proposta já chamava atenção por inverter um ditado bastante conhecido: "melhor só do que mal acompanhado".
À primeira vista, a frase pode soar estranha. Afinal, quem nunca viveu uma relação que fez desejar a própria companhia? No entanto, a reflexão apresentada por Ximo Tárrega não era uma defesa de qualquer tipo de companhia, mas um convite a revisarmos uma crença muito presente na cultura contemporânea: a ideia de que a autossuficiência é o ideal de maturidade.
O mito da autossuficiência
Um dos temas recorrentes no trabalho de Ximo Tárrega é a passagem da autossuficiência para a interdependência. Em seus escritos, ele propõe que o ser humano não existe isoladamente, mas em permanente relação com o outro e com o ambiente. A interdependência aparece como um contraponto ao individualismo e ao isolamento tão valorizados em nossa época.
A Gestalt-terapia compreende o ser humano a partir da relação organismo-ambiente. Não nos constituímos sozinhos. Nossa identidade, nossos afetos, nossas escolhas e até mesmo nossa capacidade de enfrentar dificuldades são construídos no encontro com outras pessoas.
Isso não significa dependência ou perda de autonomia. Significa reconhecer algo profundamente humano: precisamos uns dos outros.
Vivemos em uma sociedade que exalta a independência. Somos estimulados a sermos produtivos, eficientes, fortes e autônomos o tempo todo. Pedir ajuda muitas vezes é interpretado como sinal de fraqueza. Curiosamente, quanto mais cultivamos essa lógica, mais aumentam as experiências de solidão, desconexão e sofrimento emocional.
A perspectiva apresentada por Ximo Tárrega resgata valores como vínculo, solidariedade, ternura e interdependência, destacando que nossa humanidade floresce no contato genuíno com os outros. Talvez a verdadeira questão não seja escolher entre estar só ou acompanhado. A questão é a qualidade das relações que construímos.
Como praticar isso na rotina?
Em um mundo cada vez mais individualista, valorizar os vínculos exige intenção. Algumas práticas simples podem fazer diferença:
Cultive encontros presenciais. Um café compartilhado, uma caminhada ou uma conversa sem pressa fortalecem o sentimento de pertencimento.
Peça ajuda quando precisar. Permitir-se receber apoio é uma forma de reconhecer nossa humanidade.
Ofereça presença. Nem sempre as pessoas precisam de conselhos. Muitas vezes, precisam apenas ser escutadas.
Participe de grupos e comunidades. Atividades coletivas ampliam as oportunidades de troca e conexão.
Pratique a vulnerabilidade. Compartilhar dúvidas, medos e sentimentos cria relações mais autênticas e profundas.
Os aplicativos não podem substituir os relacionamentos
As tecnologias facilitam o contato, mas não substituem a experiência da presença. Podemos trocar centenas de mensagens e, ainda assim, sentir-nos profundamente sozinhos. Os aplicativos aproximam informações; os relacionamentos aproximam pessoas. Uma tela pode transmitir uma mensagem. Um encontro transmite também o olhar, o silêncio, a escuta, a emoção compartilhada e a sensação de ser acolhido. A conexão digital é uma ferramenta valiosa, mas não deveria ocupar o lugar dos vínculos humanos.
Ao sair daquela palestra, fiquei pensando que talvez tenhamos valorizado excessivamente a independência e negligenciado algo essencial: somos seres de relação. Continuo acreditando que existem situações em que deixar uma companhia é mais saudável do que permanecer em relações abusivas, destrutivas ou violentas. Mas essa não parece ser a principal escolha diante da vida. Talvez o desafio seja construir relações suficientemente boas, nas quais possamos crescer, apoiar e ser apoiados. Relações que nos lembrem que não precisamos carregar tudo sozinhos. Porque, no fim das contas, como propôs Ximo Tárrega, melhor acompanhado do que só.
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